segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

CRONOLOGIA DA CONTROVERSIA ARIANA


CRONOLOGIA DA CONTROVERSIA ARIANA

A Chronology of the Arian Controversy

 

256 - Líbia - Nascimento de Ário.

311 - Egito - Ário é ordenado presbítero pelo bispo Aquiles de Alexandria, sucessor de Pedro, martirizado em 311.

311 - Palestina - Eusébio é sagrado bispo de Cesaréia em algum momento entre 311 e 318.

312 - Egito - Alexandre é sagrado bispo de Alexandria.

317 - Ásia Menor - Eusébio, um seguidor de Luciano de Antioquia, torna-se bispo de Nicomédia.

318 ou 319 - Egito - Em uma discussão informal sobre a Trindade entre o bispo Alexandre e seus presbíteros, Ário acusa Alexandre de sabelianismo. Ele continua dando forma a sua visão adocionista seguindo a teologia de Luciano de Antioquia. Mais tarde, Alexandre de Alexandria convoca um concílio que condena e exila Ário. Este então escreve sua Carta a Eusébio de Nicomédia na qual se queixa de ter sido injustamente perseguido. A carta menciona que Eusébio de Cesaréia e muitos outros bispos orientais também foram condenados. Ário então viaja a Nicomédia a convite de Eusébio, após o que Eusébio começa uma campanha, mediante cartas aos bispos da Ásia Menor, apoiando Ário. Por esse fervoroso respaldo a Ário, Eusébio “transforma o que poderia ter sido uma disputa egípcia numa controvérsia ecumênica” (Quasten III, 91).

Em algum momento do mesmo ano, Alexandre escreve sua Epístola Católica na qual informa a seus companheiros bispos que Eusébio de Nicomédia está também propagando a heresia ariana. Ele adverte seus colegas que não sigam Eusébio, porque do contrário eles também cairão na apostasia.

320 - Ásia Menor - Enquanto se encontra em Nicomédia, Ário escreve sua Carta a Alexandre de Alexandria, na qual apresenta outro resumo de suas opiniões. Aproximadamente no mesmo momento, Ário escreve O Banquete (ou a Thalia), talvez numa tentativa de popularizar sua doutrina. Só sobrevivem fragmentos desse trabalho, a maioria na forma de citações nos escritos de Atanásio.

324 - Egito - Alexandre escreve uma Carta a Alexandre de Constantinopla que é também enviada aos bispos fora do Egito. Nessa carta, Alexandre adverte seus companheiros bispos do perigo que contém a ameaça ariana. Ele também menciona Luciano de Antioquia e Paulo de Samósata como os verdadeiros iniciadores dessa heresia.

325 - Palestina - Nos primeiros meses do ano, Ósio, um representante do imperador Constantino, preside um concílio antiariano em Antioquia. Esse concílio condena Eusébio de Cesaréia por ser um seguidor ariano e formula um credo doutrinal a favor da teologia de Alexandre.

325 - Ásia Menor - Constantino convoca o Concílio de Nicéia para desenvolver uma fórmula de fé que possa unificar a Igreja. Redige-se o Credo Niceno, declarando que o Pai e o Filho são da mesma substância (homoousios), tomando uma posição claramente antiariana. Ário é exilado na Ilíria.

327 - Ário e Euzônio escrevem uma Carta ao Imperador Constantino. Essa carta inclui um credo que tenta mostrar a ortodoxia da posição ariana e uma petição para serem restituídos à Igreja.

328 - Constantino ordena que Ário retorne do exílio na Ilíria.

328 - Egito - Alexandre de Alexandria morre a 17 de abril. Atanásio é sagrado bispo de Alexandria a 18 de junho.

335 - Palestina - Um Pronunciamento do Sínodo de Tiro e Jerusalém restitui a Ário e seus amigos a comunhão com a Igreja. Tanto Eusébio de Cesaréia como Eusébio de Nicomédia têm papéis importantes nesse sínodo. Atanásio é deposto e vai queixar-se ao imperador Constantino, com quem se encontra na metade do caminho. Diante da persistência de Atanásio em demandar uma audiência, Constantino aceita escutar seu protesto. O imperador então escreve sua Carta aos Bispos Reunidos em Tiro pedindo que se encontrem em sua presença para discutir o tema. Alguns dos bispos começam a voltar a suas casas, mas Eusébio de Nicomédia vai-se encontrar com Constantino e sua consorte.

336 - O imperador concorda com o que foi decidido no concílio a respeito de Atanásio e exila-o em Trieste.

336 - Marcelo, bispo de Ancira, é deposto em um concílio em Constantinopla. Ele havia escrito um tratado em 335 defendendo a teologia nicena, mas foi considerado um sabeliano por seus oponentes.

336 - Grécia - Ário morre repentinamente em Constantinopla na tarde anterior à cerimônia formal na qual iria reaver seu estado presbiterial.

337 - Ásia Menor - Eusébio de Nicomédia batiza Constantino, que morre a 22 de maio em Nicomédia. Sua apologia é pronunciada por Eusébio de Cesaréia. O império se divide entre seus três filhos: Constâncio no Oriente, Constantino II toma a Bretanha e as Gálias e Constante, a Itália e a Ilíria. Em 17 de junho Constâncio ordena o retorno de Atanásio a Alexandria.

338 - Grécia - Eusébio de Nicomédia é designado bispo de Constantinopla.

338 - Palestina - Um concílio em Antioquia depõe Atanásio e ordena um segundo exílio.

339 - Egito - Atanásio se apressa a voltar a Alexandria antecipando-se à expulsão. Gregório, um homem da Capadócia (não é Gregório de Nazianzo ou Gregório de Nissa) toma posse da sede do bispo Atanásio.

339 - Eusébio de Cesaréia morre no fim de 339 ou no início de 340.

340 - Depois da morte de Constantino II, Constante passa a ser o único governante do Ocidente. Ele apóia os nicenos e Atanásio, enquanto seu irmão no Oriente, Constâncio, como sabemos, se opõe à teologia nicena. Também Júlio I, bispo de Roma, recebe Marcelo e Atanásio em comunhão com a Igreja de Roma.

341 - Palestina - Realizam-se dois concílios arianos em Antioquia durante esse ano, o primeiro por ocasião da dedicação de uma igreja que fora começada sob a direção do imperador Constantino. Dos 97 bispos presentes, nenhum é do ocidente e muitos são hostis a Atanásio. Durante esse concílio, são escritas a Primeira e a Segunda Confissão Ariana, iniciando, desse modo, uma tentativa de produzir uma doutrina formal de fé oposta ao Credo Niceno (a Segunda Confissão Ariana é também conhecida como o Credo da Dedicação). A Quarta Confissão Ariana é escrita no segundo concílio do ano. Os bispos orientais negam ser arianos, elaborando a seguinte declaração: “Como, sendo bispos, deveríamos seguir um sacerdote?” (O sacerdote a que se referem é obviamente Ário).

341 - Eusébio de Nicomédia morre no inverno de 341-342.

342 ou 343 – Constante convoca um concílio na Sárdica numa tentativa de restaurar a unidade da Igreja. O concílio é um fiasco. Os bispos orientais e ocidentais se separam e denunciam-se uns aos outros. Os ocidentais publicam uma declaração que é considerada um ataque ao arianismo e os orientais retiram-se para Filipópolis, onde elaboram uma declaração fechada em Sárdica que justifica a deposição de Atanásio e Marcelo e condena Júlio I e outros. A isso se junta o 4º credo de Antioquia com anátemas adicionais dirigidos a Marcelo.

344 - Realiza-se outro concílio ariano em Antioquia. Aqui, o concílio redige a Quinta Confissão Ariana (ou Macrostich), a qual é bem mais longa que as confissões escritas em Antioquia em 341. O Macrostich é o credo oriental da Sárdica mais oito parágrafos dirigidos aos bispos ocidentais.

345 - Itália - Realiza-se um concílio em Milão. Os bispos ocidentais lêem o Macrostich.

345 - Egito - Gregório, bispo de Alexandria, morre em junho.

346 - Egito - Atanásio é restituído à sede alexandrina.

347 - Itália - Realiza-se um segundo concílio em Milão.

350 - O rebelde Magnésio assassina Constante.

351 - Um segundo concílio é convocado em Sirmium sob a supervisão de Basílio de Ancira. É escrita a Sexta Confissão Ariana (ou Primeira de Sirmium), que parece ser uma revisão aumentada da Quarta Confissão Ariana escrita em 341.

353 - Um concílio dirigido contra Atanásio é realizado em Arles no outono.

353 - Constâncio derrota Magnésio e se torna o único governante do império; ao desaparecer Constante, que apoiava os nicenos, ele trabalha para eliminar a teologia nicena.

355 - Itália - Realiza-se um concílio em Milão. Atanásio é condenado novamente.

356 - Egito - Atanásio é deposto a 8 de fevereiro, começando o terceiro exílio.

356 - George é nomeado bispo de Alexandria. Aécio, que afirma que o Filho é distinto (anomoios, daí o título de anomoeanismo) e não pode ser da mesma essência ou similar ao Pai, exerce influência sobre George.

357 - Palestina - Eudóxio, outro teólogo influenciado por Aécio, torna-se bispo de Antioquia.

357 - O terceiro concílio de Sirmium se realiza durante o inverno. Redige-se a Sétima Confissão Ariana (ou Segunda de Sirmium), também chamada “A Blasfêmia”. Os bispos ocidentais se esforçam o mais que podem para alcançar um acordo com os arianos. Tanto homoousios (de uma essência) como homoiousios (de distinta essência) são evitados por serem antibíblicos, e chega-se a um acordo de que o Pai é maior que seu Filho subordinado.

358 - Um concílio realizado em Ancira sob a liderança de seu bispo, Basílio, dá a conhecer uma declaração usando o termo homoiousios. Os bispos participantes são considerados “semi-arianos”.

359 - Realiza-se o quarto concílio de Sirmium a 22 de maio. Redige-se a Quarta Confissão de Sirmium (ou o Credo Fechado). Propõe-se uma fórmula de compromisso, que não é técnica, mas feita para agradar a todos (embora seja demasiado diluída para fazer algum bem).

359 - Constâncio convoca dois concílios para finalizar o que Nicéia havia começado, ou seja, para desenvolver um credo que unificará a Cristandade. O Sínodo de Ariminum (Rimini) é realizado no Ocidente durante o mês de maio e participam mais de 400 bispos. O Sínodo de Selêucia acontece em outubro ou dezembro e dele participam cerca de 160 bispos. Aqui se escreve a Nona Confissão Ariana, que afirma que Cristo é “como o Pai”, enquanto anatematiza os anomoeanos. Finalmente, ambos os concílios se põem de acordo com essa fórmula de fé, semi-ariana, embora não se especifique como o Filho é igual ao Pai. De qualquer modo, esse acordo parece ter sido forçado em Ariminum, o qual teria terminado, se não fosse assim, a favor de Nicéia.

360 - Grécia - Realiza-se um concílio em janeiro para revisar as conclusões de Ariminum e Selêucia do ano anterior. Redige-se a Décima Confissão Ariana. Jerônimo escreve em relação a esse concílio, vinte anos mais tarde, que “o mundo despertou um dia e gemeu ao ver-se ariano”.

360 - As tropas de Constâncio enfrentam dificuldades e estão sendo derrotadas. As forças gálicas declaram Juliano - primo de Constâncio - imperador, ao invés de dar seu apoio ao decadente Constâncio.

361 - Constâncio morre a 3 de novembro, depois de nomear Juliano imperador.

361 - Palestina - Realiza-se um concílio em Antioquia enquanto se instala Euzônio como bispo de Antioquia (Euzônio havia sido excomungado com Ário em 318 e 325 e readmitido com ele em 335). Durante esse concílio, escreve-se a Décima-Primeira Confissão Ariana. Esse credo é fortemente anomoeano, o que leva Atanásio a observar que os arianos tinham retornado às primeiras doutrinas forjadas por Ário.

373 - Atanásio morre a 3 de maio.

373 - Grécia - O Primeiro Concílio (segundo ecumênico) de Constantinopla se realiza para rever a controvérsia desde Nicéia. Sob a direção de Gregório de Nazianzo, reavalia-se o Credo Niceno, que é aceito com a junção das cláusulas sobre o Espírito Santo e outros temas.

383 - Revisam-se as decisões do Primeiro Concílio de Constantinopla. 383 pode ser identificado como o ano em que terminou a controvérsia ariana, ou seja, a Igreja finalmente aceitou uma fórmula de fé não-ariana que não foi mais questionada por outras confissões arianas. Embora os arianos continuem existindo durante muito tempo ainda, a agenda teológica da Igreja se desvia da Trindade e se precipita em outra controvérsia, a cristológica do século V.”


ADAPTADO DE Anthony Beavers e Robert Rivers, A Chronology of the Arian Controversy.
POR - Pr. Cirilo Gonçalves
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quarta-feira, 26 de novembro de 2014

REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS SAGRADAS - A BÍBLIA


SOBRE REVELAÇÃO E INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS SAGRADAS – A BÍBLIA

Revelação: A ideia clássica, evangélica e moderna é que o Senhor usou apenas um modelo de operação no processo de Revelação e Inspiração das Escrituras Sagradas. Mas estudos modernos mostram na Bíblia uma variedade de formas divinas de R-I. O próprio livro de Hebreus afirma, na sua introdução que “havendo Deus, outrora, falado muitas vezes (polumers) e de muitas maneiras (polutrops), aos pais, pelos profetas, nestes últimos dias nos falou pelo Filho” (Hb 1.1-2).

Estudiosos Adventistas têm reconhecido esta variedade e têm sugerido que ao modelo “profético” geralmente aceito devemos acrescentar a “pesquisa modelo” de revelação. Sugerem ainda, outros modelos de revelação como “testemunha”, “conselheira” “epistolar” e “literária”. Outros estudos devem ser feitos para avançar no conhecimento de como as agencias divinas interagem com as humanas para a geração do pensamento e informação bíblica.

Todavia parece claro que na produção das Escrituras, as agencias divinas e humanas interagiram, no mínimo, nos seguintes modelos: (1) Teofânico, Êx 3.1-5. (2) Profético, Ap 1.1-3. (3) Verbal, Êx 31.18. (4) Histórico, Lc 1.1-3. (5) Sapiencial, Ec 1.1, 12-14; 12.9-11. (6) Existencial, Lm 3.1.

Inspiração: Os profetas nos deixaram muita informação sobre as maneiras como as intervenções divinas ocorreram enquanto eles estavam comunicando suas mensagens nas formas oral e escrita. Parece que os escritores bíblicos recebiam as ideias e informação antes de se assentarem para escrever. Portanto, a função do Espírito Santo na inspiração não era primeiramente gerar pensamentos, mas assegurar a comunicação fidedigna da informação recebida. Quando Deus enviou Moisés para libertar Israel do cativeiro egípcio, a dupla Moisés-Arão trabalhou de maneira semelhante à dupla Deus-profeta. Moisés representava Deus ao “pôr as palavras na boca” de Arão. Arão falando por Moisés ao povo, desempenhava o papel de profeta. O ato de “pôr as palavras” na boca de alguém significava que o receptor tornava-se um representante subserviente de outro; o representante, porém, tinha a liberdade de representar. Tinha poder de procurador. A representação textual não faz sentido. Arão tinha acentuadas habilidades verbais, e Deus o chamou para usar o seu dom. Do mesmo modo, os profetas e apóstolos, como representantes de Deus, eram subservientes aos pensamentos divinos, mas os expressavam segundo seu entendimento e maneira de expressão.

Contudo, devemos ter em mente que na revelação o pensamento divino se adaptava às limitações e imperfeições dos processos de pensamento humano. Com a inspiração, o pensamento divino, já adaptado ao modo humano de pensar, ajusta-se aos modelos da escrita humana. Então, a maneira de pensar e de escrever que encontramos nas Escrituras não é divina, mas humana. “... Os escritores da Bíblia foram os instrumentos de Deus, não a sua pena” (1ME 21). Claro, isso não significa que o conteúdo das Escrituras é indigno de confiança. Significa apenas que não devemos esperar das Escrituras absoluta perfeição divina nos mínimos detalhes, como se Deus tivesse usado Sua maneira perfeita de pensar e escrever. O conteúdo verdadeiro gerado pela revelação torna-se expresso no modo imperfeito do pensamento e da escrita humanos. Por exemplo, os escritores bíblicos não tinham memória perfeita; eles esqueciam as coisas como nós. Não possuíam percepção sensorial perfeita. Não eram capazes de compreender toda a riqueza dos pensamentos e ideias divinos a eles revelados. Além disso, nossas palavras podem ter vários, mesmo contraditórios, significados diferentes, e assim por diante. Tudo isto é parte do modo humano de pensar e escrever que Deus usou ao revelar e inspirar as Escrituras.

A inspiração divina apagava ou anulava as imperfeições do modo humano de pensar e de escrever? Os inspiracionistas verbais acreditam que sim. Eu não compactuo com esta ideia. Deus usou nosso imperfeito meio de comunicação para revelar-se a si mesmo e sua palavra a nós. Na Bíblia, portanto, encontramos a verdade divina expressa em um imperfeito modo humano de comunicação. A direção do Espírito Santo não anulava o modo de pensar e de Escrever dos escritores bíblicos, mas supervisionava o processo da escrita a fim de maximizar a clareza das ideias e prevenir, se necessário, a distorção da revelação, ou a mudança da verdade divina em uma mentira. As Escrituras Sagradas apresentam um exemplo de uma forma de intervenção divina ocasional também usada pelo Espirito Santo como por exemplo no caso de Balaão (Nm 22.1-24.25). O episódio de Balaão não deve ser usado como modelo geral de inspiração divina como sugere a teoria verbal. Não deve-se aplicar o exemplo de Balaão aos profetas bíblicos. À essa altura, é necessário afirmar a total confiabilidade das Escrituras dentro dos parâmetros das limitações das limitações normais do pensamento e do processo linguístico humanos. Sendo que toda a Bíblia é revelada e inspirada dentro do nível do pensamento e linguagem humanos, ela não representa a perfeição divina; entretanto suas palavras nos revelam com segurança os pensamentos e a vontade de Deus. Tal visão explica por que certas discrepâncias e a ausência de absoluta precisão em matérias de detalhe que encontramos nos fenômenos das Escrituras não afetam a comunicação fidedigna dos conteúdos revelados.

Um Modelo Bíblico de Revelação-Inspiração. Esse modelo está baseado em Paulo (2Tm 3.16) e Pedro (2Pe 1.20-21).

O theopneustos de Paulo. Paulo fala que “toda Escritura é inspirada por Deus” (Gr. pasa graph theopneustos). Embora a palavra “inspiração” venha do equivalente latino divinitus inspirata, Paulo usa a palavra theopneustos que literalmente significa “Deus soprou” ou “soprada por Deus”. Entretanto não temos ideia plena acerca do que um “sopro divino” poderia significar quando aplicado literalmente à origem das Escrituras. Contudo podemos compreendê-lo metaforicamente. Assim compreendido, o texto diz que Deus está envolvido diretamente na origem das Escrituras, embora não explique o modo e pormenores da operação divina. Fica mais obvio entender que o Espirito Santo orientou todo o processo da geração das Escrituras.

O pheromenoi de Pedro. Pedro em suas observações sobre a origem das Escrituras nos fornece mais variações e análises. Declarando que “homens falaram da parte de Deus sendo dirigidos (pheromenoi, “sendo movidos”) pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21), Pedro realça claramente o fato de que seres humanos escreveram as Escrituras sob a direção do Espírito Santo. Tanto Deus quanto seres humanos estiveram envolvidos na produção das Escrituras. Pedro qualificou cuidadosamente a intervenção de agentes humanos: “sabendo, primeiramente, isto: que nenhuma profecia da Escritura provém (ginetaí) de particular elucidação (epiluses) (2Pe 1.20). No contexto em que ele usa a palavra grega epilusis, Pedro está dizendo que mesmo quando seres humanos estavam envolvidos em em escrever as Escrituras, eles não originaram as explanações, exposições, ou interpretações dos vários assuntos ali apresentados.

Devemos entender a inspiração divina das Escrituras da qual Paulo, Pedro e outros contextos falaram, no mínimo, da seguinte maneira:

  1. “Direção” divina ou “movidos” agindo diretamente sobre a agencia humana no processo de Revelação e Inspiração.
  2. “Direção” divina ou “movidos” das agencias humanas seguiu as várias maneiras da providência divina operando dentro do fluxo dos eventos históricos, não como o atemporal, soberano e absoluto poder de Deus operando por meio de decretos eternos e anulando a liberdade dos escritores bíblicos.
  3. Deus guiou a recepção de informação e a formação de ideias nos escritores bíblicos por meio de um processo histórico de revelações divinas cognitivas dadas a eles em uma diversidade de modelos.
  4. A “orientação” divina e o “movidos” das agencias humanas adotaram modelos múltiplos de operações divinas, nos processos de revelação e inspiração (Hb 1.1) com acentuada ênfase sobre o primeiro. Esta ênfase permite a inclusão da dinâmica da inspiração do pensamento no modelo bíblico.
  5. Toda Escritura foi revelada e inspirada. Neste sentido, o modelo bíblico de Revelação e Inspiração é pleno, porque aceita a totalidade das Escrituras.
  6. A “direção” do Espírito Santo ou “movidos” utilizava-se da liberdade e habilidades literárias das agencias humanas em seu desenvolvimento histórico e espiritual. A anulação divina da agencia não era o principal modelo de “direção” divina ou “movidos”, mas um possível último recurso para evitar a má representação humana.
  7. Pelo fato de que a direção do Espírito Santo respeitava os modos humanos de pensamento e escrita, não devemos esperar encontrar nas Escrituras a perfeição absoluta que pertence unicamente à vida íntima da Trindade. Ao contrário, não nos devemos surpreender se encontrarmos nas Escrituras imperfeições e limitações que pertencem essencialmente aos modos humanos de pensar e escrever.
  8. Embora a “direção” e o “movidos” divinos operassem nas agencias humanas, por meio delas são atingidas as palavras das Escrituras. Neste sentido o modelo bíblico de R-I é “verbal”.
  9. A “direção” divina no processo da escrita não assegurava absoluta perfeição divina, em sua totalidade as Escrituras verdadeira e fielmente representam os ensinamentos, vontade e obras de Deus.

Em resumo: Deus e não os escritores humanos, é o autor das Escrituras no sentido de que ele é a fonte de conteúdo, ação e interpretação.

 

Este resumo foi feito do artigo Revelação e Inspiração do Dr. Fernando L. Canale.  REID. Compreendendo as Escrituras, pp. 47-74.

 
Por: Pr. Cirilo Gonçalves
Doutorando em Teologia
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quinta-feira, 20 de novembro de 2014

INTERPRETAÇÃO DA PROFECIA PREDITIVA - PASSOS FUNCIONAIS


PASSOS FUNCIONAIS PARA A INTERPRETAÇÃO DA PROFECIA PREDITIVA

  1. Determine o ambiente histórico em que a profecia nasceu. Quem a escreveu, quando, e sob quais circunstâncias. Veja exemplos em outros livros em que tal profecia saltou de uma crise imediata para o escatológico “Dia do Senhor” no final do tempo, por exemplo; a descrição dos gafanhotos em contexto local saltando para o escatológico “Dia do Senhor”.
  2. Analise a estrutura literária do livro e a passagem imediata sob consideração, determinando onde ocorre ou aparece essa passagem e que parte ela desempenha na estrutura global do capítulo ou do livro, por exemplo; Gn 3.15 é centro quiástico do capítulo 3.
  3. Olhe atentamente para o fluxo gramatical natural da passagem: palavras, frases, clausulas, sentenças, para compreender o que especificamente é predito, por exemplo; a mudança ou deslocamento em Gn 3.15 de uma “semente” coletiva – descendentes espirituais de Eva – para uma “Semente” singular, o Messias; uma mudança ocorre também em Gn 22.17-18, conforme reconhecido por Paulo Apóstolo, em Gl 3.6, 16.
  4. Note quaisquer símbolos existentes ou qualquer linguagem figurativa empregada e determine o significado de símbolo ou figura à luz do contexto imediato e amplo, por exemplo; os muitos sinais-ações de Ezequiel.
  5. Determine que tipo de predição profética está envolvido: messiânico, oráculo contra uma nação estrangeira, ou uma promessa do reino para um Israel teocrático. Se for profecia messiânica, note que aspectos dessas profecias não são dependentes da escolha humana e são, portanto, incondicionais, e quais estão descrevendo efeitos do advento do Messias que são condicionais, dependendo da reação de Israel. Note, também, se a predição é diretamente messiânica, como no Sl 110, ou indiretamente (tipologicamente) messiânica, como no Sl 2. Se for tipologicamente messiânica, procure na passagem indicadores de que a linguagem vai além do que é aplicável à pessoa, evento ou instituição do Antigo Testamento e aponta para o futuro, para o Messias. Use uma concordância ou anotações marginais para traçar conexões entre a profecia do Antigo Testamento e a vida de Cristo relatada nos evangelhos.
  6. Se for uma profecia do reino, concernente ao futuro de Israel, analise as promessas ou profecias específicas que são dadas e verifique as anotações marginais a fim de descobrir onde profecias similares ou relacionadas são dadas em outras partes do Antigo Testamento. Visualize o plano divino original para o povo de Israel enquanto eles permanecem fiéis a Deus, bem como as maldições da aliança que vêm como ameaças no caso de contínua infidelidade à aliança, rompendo o plano divino.
  7. Na compreensão do cumprimento no Novo Testamento dessas promessas do reino, lembre-se de Jesus, como o israelita representativo, realizou em si mesmo o cumprimento básico literal, inicial (inaugurado) das profecias do reino, por exemplo; as profecias de “ajuntamento” receberam um cumprimento inicial, em princípio, quando Ele reuniu a si mesmo os doze discípulos.
  8. Reconheça que essas mesmas promessas/profecias encontram cumprimento espiritual na igreja, o corpo de cristo, por exemplo; a igreja é reunida espiritualmente pela fé em Cristo.
  9. Note que essas profecias do reino encontram seu cumprimento consumado, universal e literal no segundo advento e além, por exemplo; Cristo reúne, universal e literalmente todo o seu povo a si mesmo no segundo advento e outra vez depois do milênio.
  10. Em relação à terminologia geopolítica nacional ou imagens para Israel, que se encontram nas profecias do reino, reconheça que essa linguagem, Jerusalém, monte Sião, Israel, etc., é frequentemente universalizada no Novo Testamento quando se refere ao Israel cristão, às realidades celestiais, ou à Nova Jerusalém depois do milênio.
  11. As profecias do reino descrevendo os inimigos de Israel devem ser igualmente interpretadas no Novo Testamento com referência a Cristo, como falamos nos passos 7 a 9, os literais e locais inimigos de Cristo em seu primeiro advento, por exemplo; Jo 13.18; os inimigos espirituais e universais durante a era cristã (Ap 12.13-16); e os inimigos literais e universais no segundo advento e além (Ap 20.8-9).
  12. As profecias do reino do Antigo Testamento de natureza apocalíptica, referindo-se especificamente à batalha final escatológica entre Israel e seus inimigos (Ez 38-39; Zc 12-14; Jl 3; Is 24-17), também devem ser interpretadas em harmonia com os princípios cristocêntricos já enfatizados. O cumprimento consumado é literal, isto é, os inimigos de Deus marcham literalmente contra Jerusalém, e o monte das Oliveiras se divide em dois (Zc 12.1-9; 14.4; cf. Ap 20.9), mas as referências a Israel e seus inimigos são universalizadas: Israel se refere ao verdadeiro povo de Deus em todas as eras; Gogue e Magogue se referem a todos os seus inimigos (Ez 38-39; cf. Ap 20.8).

 

Ver o Artigo completo de Richard M. Davidson no livro: Compreendendo as Escrituras, págs 201-202. REID, George W.

 

Adaptado por:
Pr. Cirilo Gonçalves

Evangelista da IASD – AP, SP

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