sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A MELHOR TRADUÇÃO PARA O TEXTO DE APOCALIPSE 22.14


QUAL A MELHOR TRADUÇÃO PARA O TEXTO DE APOCALIPSE 22.14?

Introdução

Não existe nenhum autógrafo do livro de Apocalipse, bem como dos demais livros da Bíblia. O que temos são cópias de cópias e estas, como nos informa a História do Texto Bíblico, por vários fatores, sofreram o risco dos erros dos copistas. Por exemplo, alguns copistas tinham o hábito de colocar notas marginais ou ao pé da página acrescentando algo ao que estava copiando ou explicando-o. Um escriba posterior achando ideias válidas nestas notas e consentâneas com a doutrina bíblica, ele as introduzia no texto. Creem os estudiosos que foi isto o que aconteceu com a doxologia do Pai Nosso, com as três testemunhas celestiais de I João 5.7-8, e com o anjo que agitava as águas em São João 5.4.
A inclusão de algumas palavras ou até frases, em um ou outro manuscrito do texto sagrado, não alterou nenhuma de suas doutrinas, nem deu origem a nenhuma doutrina nova e ainda mais, os textos envolvidos com problemas de Crítica Textual nada têm a ver cem a doutrina da salvação ou da justificação pela fé.
A finalidade deste capítulo é esclarecer os problemas de Ap 22.14, porque há nele implicações tanto doutrinaria como de Crítica Textual. O Texto no Original e sua tradução: a) No Grego: Makarioi hoi plinontes tas stolas auton Makarioi hoi piountes tas entolas autou. b). Sua tradução. Em algumas traduções como a de Figueiredo, Ferreira de Almeida, Bíblia de Jerusalém, New English Bible, Novo Testamento na Linguagem de Hoje, Novo Testamento Vivo e estrangeiras como: Alford, Goodspeed, Spender, Moulton, Fenton, Weymouth, Moffatt, Wyclif, Knox encontramos:
"Bem-aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras. . ."; enquanto que as traduções: The Holy Bible, King James Version, La Sacra Biblia, Giovani Diodati (Italiana), a tradução siríaca e outras consignam:  "Bem-aventurados aqueles que guardam os seus mandamentos...". Comentários sobre o texto: Não nos foi possível precisar a data em que o problema surgiu, entretanto, quase todos os estudiosos do assunto têm chegado a um denominador comum quanto à divergência no texto; esta apareceu em consequência do equívoco dos copistas. A grande semelhança entre os dois textos no original (pois há apenas seis letras diferentes) fez com que os escribas substituíssem um pelo outro. A diferença entre as palavras "vestes" e "mandamentos" no grego é uma questão de letras iniciais. Vestes no acusativo plural é stolas e mandamentos entolas sendo a diferença de um "s" e de "en" nas respectivas palavras. Por isso muitos admitem que esta pequena diferença foi a causa da troca de algum copista.
Qual era o texto original? A Crítica Textual não tem condições de dar uma resposta definitiva a esta pergunta. Os adventistas citávamos, em tempos passados, Apocalipse 22.14 como uma prova eloquente da observância dos mandamentos como fator de nossa salvação, mas em virtude de ser uma passagem contraditória, hoje não o fazemos com tanta veemência. A seguir se encontram soluções propostas pela crítica Textual e por renomados exegetas e comentaristas.
O Comentário Adventista, vol. VII, pág. 897, sobre este verso declara:  "Importante evidência textual pode ser citada para a variante 'que lavam as suas vestiduras'. Poucos manuscritos consignam 'que lavaram suas vestiduras'. Dos unciais primitivos, somente o Sinaítico e o Alexandrino contêm esta seção do Apocalipse, e ambos inserem 'que lavam as suas vestiduras'. A maior parte dos manuscritos minúsculos apresenta que guardam os seus mandamentos'. As traduções antigas acham-se divididas entre as duas formas, bem como as citações patrísticas. As duas frases são muito semelhantes em grego, e é fácil concluir-se como um escriba pôde ter confundido uma frase pela outra, embora seja impossível saber-se qual seria a versão original. "A seguinte transliteração mostrará a semelhança: 'que guardam os seus mandamentos'. 'que lavam suas vestes'. "Como um fato autêntico ambas as versões se adaptam ao contexto e estão em harmonia cem os ensinamentos de João noutros lugares. Sobre o assunto de guardar os mandamentos, Ver Ap. 17.17; 14.12; confira Jo 14.15, 21; 15.10; 1 Jo 2.3-6. Sobre o assunto de lavar as vestiduras veja Ap. 7.14, onde é descrita uma multidão de santos como tendo lavado suas vestes e tornado brancas no sangue do cordeiro. O nosso título ao céu é a justiça de Cristo imputada: nossa adaptação para o céu, é a justiça de Cristo comunicada, representada pelas vestiduras lavadas. A evidência exterior da justiça de Cristo comunicada é perfeita obediência aos mandamentos de Deus. Por isso as duas ideias de vestiduras lavadas e obediência aos mandamentos de Deus estão intimamente relacionadas. "À luz dos problemas de tradução aqui discutidos, pareceria mais sábio construir os fundamentos da doutrina da obediência aos mandamentos de Deus, sobre outras passagens das Escrituras que tratam da obediência, sobre as quais nenhum problema de evidência textual tenha surgido. Há muitas delas. "Para um estudo mais completo deste problema veja Problems in Bible Translation, págs. 257 –262." O Comentário Exegético y Explicativo de la Biblia de Roberto Jamieson, A. R. Fausset e David Brown da Casa Bautista de Publicaciones assim se expressa sobre Ap. 22.14: " 'Guardam os seus mandamentos', assim aparece na tradução Siríaca, na Cóptica e nos escritos de Cipriano, porém, os códices Alexandrino e Alef ou Sinaítico e a Vulgata trazem 'Bem-aventurados os que lavam suas vestes' isto é, no sangue do cordeiro – Ap 7.14. Este ensino tira o pretexto da salvação pelas obras. A nossa versão é mais compatível com a salvação pela graça, pois que o mandamento evangélico maior e primeiro, dado por Deus é crer em Jesus Cristo. Assim nosso poder (em grego – privilégio ou autoridade legal – exousia) sobre a árvore da vida, não se deve a nossas obras, mas aquilo que Jesus fez por nós. O direito ou privilégio, está baseado não em nossos méritos, mas na graça de Deus". II Vol. pág. 831. Conforme o New Testament of our Lord and Savior Jesus, With Commentary and Critical Notes, by Adam Clarke – Published by Lane & Scott (New York) 1950, temos a seguinte declaração: "Para que eles tenham direito à árvore da vida, precisam ser obedientes aos mandamentos de Deus. Todavia, sem a graça, não há obediência, sem a obediência não há acesso à árvore da vida. Através da graça de Cristo nós recebemos o bem".
Conclusão:
Creio serem oportunas e muito adequadas as palavras de C.W. Irwin, inseridas em O Ministério Adventista, maio e junho de 1954, pág. 20, como fecho destas considerações:
"Os escritores do Novo Testamento têm a tendência de dar mais ênfase ao princípio da justiça pela fé do que à justiça pelas obras da lei, do que resultou a tradução: 'Bem-aventurados aqueles que lavaram as suas vestiduras'. . . etc. Isto parece estar mais em conformidade com o espírito do Novo Testamento, e é, sem dúvida, a tradução dum original grego correto. "De maneira nenhuma pode essa versão ser usada como argumento contra a validade e perpetuidade da lei de Deus, concretizada nos Dez Mandamentos. É simplesmente uma confirmação de que o escritor inspirado, nesse passo, não se referia aos Dez Mandamentos, mas enunciava um princípio de concerto novo de justiça pela fé.
"Tanto no Velho como no Novo Testamento a expressão "vestir" refere-se ao caráter. Em Zacarias, os trapos imundos representam a pobreza espiritual, pelo que, a mudança das vestes ou vestes brancas, é um símbolo da pureza de caráter, atingida apenas por meio da fé na graça salvadora de Jesus Cristo. Deste ponto de vista, o passo é esclarecedor e belo."
Nota:
O livro citado, Publicação Adventista da Review and Herald, é bastante útil para obreiros e mesmo para os que não são técnicos da área, mas são  estudiosos.
 
Adaptado de Pedro Apolinário
Pr. Cirilo Gonçalves - Evangelista da IASD - AP,SP.
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sábado, 23 de julho de 2016

ABOMINAÇÃO DA DESOLAÇÃO - MATEUS 24.15

ABOMINAÇÃO DA DESOLAÇÃO.
 
Designação enigmática encontrada em Mat. 24:15, emprestada de Daniel (11:31; 12:11), onde a frase correspondente aparece como “abominação desoladora”. Daniel predisse uma grande profanação do templo por um poder estrangeiro, em uma tentativa de substituir o verdadeiro sistema de culto por um falso. O gr. bdelugma tes eremoseos, “abominação da desolação”, em Mat. 24:15 é idêntico à tradução da LXX, (MS, 88) do heb. shiqqûs shômem em Dan. 12:11. Em Dan. 11:31 shiqqûs meshômem é traduzido como bdelugma ton eremoseon. (Compare bdelugma ton eremoseon, “Abominações assoladoras”, em Daniel 9:27; e hamartia eremoseos, “transgressão assoladora”, no cap. 8:13, ambas as expressões, sem dúvida, devem ser identificadas com bdelugma tes eremoseos, dos caps. 11:31 e 12:11). O heb. shiqqûs é um termo comum no A.T. que designa uma “deidade idolátrica” (e.g., Deut. 29:17; II Reis 23:24; II Crôn. 15:8; Ez. 37:23). Dizia-se que tais “abominações” colocadas no templo aviltavam e poluíam o recinto sagrado nos tempos do A.T. (Jer. 7:30; Ez. 5:11). O heb. shamem, a forma pela qual é traduzida “desolação”, (mais literalmente, “alguma coisa que torna desolado”) significa devastação causada por um exército invasor (Jer. 12:11), uma cena que cria um senso de horror na pessoa que a observa (Jer. 18:16). O heb. pesha, transgressão”, na expressão paralela “transgressão assoladora”, em Dan. 8:13 é usado para atos de Apostasia e rebelião contra Deus (Veja Amós 2:4, 6; Miq. 1:5).

INTERPRETAÇÃO DE VÁRIOS COMENTADORES SOBRE A QUESTÃO

Cerca de 100 a.C., o escritor de I Macabeus (Veja I Mac. 1:54, 59; cf. 6:7) identificou a “abominação desoladora” (bdelugma eremoseos) como um Altar idolátrico erigido por Antíoco Epifânio, sobre o altar de ofertas queimadas no templo de Jerusalém em 168 a.C.. Cerca de 70 a.C., Josefo aplicou igualmente a profecia de Daniel a um “altar idolátrico”, construído sobre o “altar de Deus” (Josefo, Antigüidades, X. 11.7 [Loeb, 272-276]; XII 5 [Loeb, 253]. Em Mat. 24:15 (cf. Luc. 21:20-22), Cristo aplicou-a aos romanos, que, 40 anos mais tarde, em 70 A.D., invadiram Jerusalém e queimaram o templo, e no ano 130 A.D. ordenaram a construção de um templo a Júpiter Capitolino em seu lugar (Cambridge Ancient History, vol. XI, p. 313). Comentaristas judeus da Idade Média, tais como Ibn Ezra, de modo semelhante, aplicaram-na à obra dos romanos no primeiro século A.D. (L. E. Froom, Prophetic Faith of Our Fathers, vol. 2, pp. 210, 213). Irineus, Orígenes e outros escritores cristãos dos primeiros séculos aplicaram-na a um futuro Anticristo (ibid., vol. 1, pp. 247, 320, 366), como fizeram escritores católicos medievais posteriormente, tais como Villanova e Olivi (ibid., pp. 752-754, 773). Pseudo Joaquim aplicou-a aos Papas de seus dias (ibid., p. 728), Wyclif (ibid., vol. 2,  p. 58), Huss (ibid., p.118), Lutero (ibid., pp. 272, 277, 280) e vários comentaristas protestantes identificaram-na com o Papado ou com as práticas e doutrinas da igreja papal. Guilherme Miller e provavelmente a maioria dos pregadores Mileritas fizeram o mesmo. A maioria dos comentaristas protestantes modernos aplicam a “abominação desoladora” ao culto idolátrico instituído por Antíoco Epifânio, enquanto que os comentaristas fundamentalistas consideram Antíoco Epifânio como um protótipo do homem do pecado que viria no futuro.

VISÃO PROPOSTA POR URIAS SMITH - PIONEIRO ADVENTISTA

Urias Smith, comentarista pioneiro ASD, aplicou a disseminação das “abominações” de Dan. 9:27 aos eventos do ano 70 A.D., sob o domínio de Roma pagã, e a “abominação da desolação” ao Papado. (RH, 28 de fevereiro, 1871) Especificamente identificando “O Contínuo” (diário) de Dan. 8:11; 11:31; 12:11 com o “paganismo” do Império Romano, e a “abominação da desolação” com o Papado, Smith aplicou a “remoção do contínuo” e a introdução da “abominação desoladora” em seu lugar ao estabelecimento da supremacia papal sobre a dissolução do Império Romano, um processo que ele considerou completo por volta de 538 A.D. e um estado de eventos contínuos por 1.260 anos até a prisão do Papa Pio VI em 1798 (com base em Dan. 7:25 e 12:7). Smith identificou a Ponta Pequena de Daniel 8 com Roma em suas duas fases, pagã e papal (Daniel and Revelation, 1882, ed., p. 202).

COMENTADORES MODERNOS ADVENTISTAS DO SÉTIMO DIA

Comentaristas ASD contemporâneos semelhantemente identificam a “abominação da desolação” com os ensinamentos e práticas Papais não fundamentados nas Escrituras, tais como sacrifício da missa, confissão, veneração da virgem Maria, celibato sacerdotal e estrutura hierárquica da igreja — porém, enquanto alguns defendem a interpretação de Smith do “contínuo”, outros compreendem que “o contínuo”, substituído por essas práticas extrabíblicas, refere-se, na aplicação da profecia de Daniel na Era Cristã, ao ministério de Cristo como nosso grande Sumo Sacerdote no Santuário Celestial. Eles igualam a “ponta pequena” ou “um rei de feroz catadura” (Dan. 8:9-14, 23), que estabeleceu a “transgressão desoladora”, e o “rei do Norte” dos caps. 11 e 12, que estabeleceu a “abominação da desolação”, com o “Homem do Pecado”, “mistério da iniqüidade” ou o “iníquo” de II Tess. 2:2-12; com o “anticristo” de I João 2:18; com a besta semelhante a um leopardo de Apoc. 13; com “mistério, Babilônia, a grande, a mãe das meretrizes e das abominações da terra” de Apoc. 17. A “abominação” introduzida pelo poder apóstata, que consiste em práticas e ensinos não-bíblicos, é causadora de sua “queda” (literalmente, “apostasia”) da verdade revelada nas Escrituras (II Tess. 2:3, 9-12), de suas “blasfêmias” (Apoc. 13:1, 5, 6); e do “vinho” de Babilônia (Apoc. 17:2).

Na tradição histórica protestante, os ASD consideram que a Igreja de Roma e seus ensinos não fundamentados na Bíblia são o cumprimento histórico dessas profecias.



Os interessados ao tema, devem buscar na literatura teológica adventista mais informações.

Pr. Cirilo Gonçalves
Evangelista da IASD - AP, SP
Bacharel e Mestre em Teologia - UNASP
Doutorando em Teologia - RTS (Reformed Theologic Seminary)
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domingo, 5 de junho de 2016

SALMO 1 - BÊNÇAO OU MALDIÇÃO PARA TODOS

SALMO 1

1 Bem-aventurado o homem

    que não anda no conselho dos ímpios,

não se detém no caminho dos pecadores,

    nem se assenta na roda dos escarnecedores.

2  Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR,

    e na sua lei medita de dia e de noite.

3  Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas,

    que, no devido tempo, dá o seu fruto,

e cuja folhagem não murcha;

    e tudo quanto ele faz será bem sucedido.

4 Os ímpios não são assim;

    são, porém, como a palha

    que o vento dispersa.

5  Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo,

    nem os pecadores, na congregação dos justos.

6  Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos,

    mas o caminho dos ímpios perecerá.

Este poema é uma introdução de encaixe ao livro de 150 salmos. Revela o padrão básico da sabedoria e adoração de Israel. A vida é vista não nos momentos isolados do presente, mas na perspectiva da eternidade, na visão de Deus. O autor conecta vida humana intimamente com a vontade e o coração de Deus. O salmo lança um apelo desafiador a Israel – e a todos os que buscam a bênção de Deus – a voltar à Sua Palavra revelada para receber o verdadeiro conhecimento de Deus e andar à luz de Sua sabedoria.

O caminho da bênção está aberto diante do homem mediante uma vida de companheirismo incessante com o Deus de Israel. Não é de maneira nenhuma um atalho em que a razão humana pode descobrir por si só, mas é um dom do Redentor de Israel. Como a fonte de vida, o Senhor mostra o modo de vida. Todos os outros caminhos conduzem à ruína. Tais cursos de vida escolhidos pelo eu são por definição o oposto do modo do Senhor, modos que divergem de Sua lei. Os que rejeitam o Senhor, o Deus de Israel, e a Sua lei são descritos em condições negativas como os irreligiosos (Sal. 119:51, 78) porque não há nenhum outro Deus além do Senhor.

Pois quem é Deus além do SENHOR [Yahweh]?

    E quem é rocha senão o nosso Deus?

                                                  (Sal. 18:31, NVI)

Os salmos de Israel tencionam atrair a todas as nações para adorar o Deus de Israel como o único Deus vivo (Sal. 2:10-12; 115; 117). Mais que isso, eles definitivamente prevêem muitos adoradores do SENHOR entre as nações gentílicas (Sal. 87:4). Várias razões são determinadas para a efetividade deste apelo universal do Deus de Israel.

O Senhor é o Criador do mundo e de todos os homens (veja Sal. 24:1;

96:4-5).

O Senhor é o Salvador de todos os que escolhem adorá-Lo (veja Sal. 

105-106; 2:12; 34:8).

O Senhor é o soberano Monarca do mundo que restaurará justiça, paz,

e prosperidade na Terra (veja Sal. 2; 46; 72).

O Senhor é o Juiz de todos os homens, que retribuirá ao homem de

acordo com as suas obras (veja Sal. 62:12; 96:10-13).

Pelo fato de que nenhum outro deus salvou Israel de sua escravização do Egito, o Senhor fez uma reivindicação exclusiva no amor e lealdade de Israel. Se uma voz surgisse entre Israel, insistindo com eles para servirem a outros deuses que podem executar milagres, tal profeta ou vidente seria posto à morte, "pois pregou rebeldia contra o SENHOR, vosso Deus, que vos tirou da terra do Egito e vos resgatou da casa da servidão, para vos apartar do caminho que vos ordenou o SENHOR" (Deut 13:5).

Isto mostra como a Torah de Israel fez da adoração do Senhor um assunto de suprema importância, uma questão de vida ou morte. A última crença era: "Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR [ou: o SENHOR só]" (Deut 6:4). A posição de Israel diante do Senhor era de uma nação redimida e santa, de "filhos do SENHOR", de "seu tesouro pessoal" (Deut 14:1, 2, NVI).

Antes do povo escolhido entrar na terra prometida, Moisés bendisse Israel desta maneira:

O Deus eterno é o seu refúgio,

    e para segurá-lo estão os braços eternos.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Como você é feliz, Israel

    Quem é como você,

povo salvo pelo Senhor?

Ele é o seu abrigo, o seu ajudador

    e a sua espada gloriosa.

                                 (Deut 33:27, 29, NVI)

Este privilégio único da eleição divina não excluiu mas antes inclui uma solene responsabilidade:

Hoje invoco os céus e a terra como testemunhas contra vocês, de que coloquei diante de vocês a vida e a morte, a bênção e a maldição. Agora escolham a vida, para que vocês e os seus filhos vivam, e para que vocês amem o Senhor, o seu Deus, ouçam a sua voz e se apeguem firmemente a ele. Pois o Senhor é a sua vida, e ele lhes dará muitos anos na terra que jurou dar aos seus antepassados, Abraão, Isaque e Jacó (Deut 30:19, 20).

Como fundamento do Livro de Salmos, o primeiro salmo pressupõe a Torah e a história da salvação de Israel – a redenção do êxodo e a aliança da graça em particular. Este poema de sabedoria coloca diante de Israel e das nações o desafio constante para escolher o Senhor e o Seu modo de vida para homem.

Israel como um povo, depois de herdar a terra prometida, escolheu de fato andar na aliança do Senhor? O Livro de Juízes descreve como, depois da morte de Josué – que conduziu Israel a Canaã – surgiu uma geração "que não conhecia o Senhor e o que ele havia feito por Israel. Então os israelitas fizeram o que o Senhor reprova e prestaram culto aos baalins. Abandonaram o ­Senhor" (Juí. 2:10-12). Esta era a triste realidade. Revela tanto o poder destrutivo do coração natural do homem – que tende a confiar em seus próprios critérios – quanto a importância vital de conhecer o Senhor e de andar em Seus caminhos. A história de Israel ensina dramaticamente a indispensabilidade da Torah. O povo que conhece a Deus mediante o conhecimento da Torah será abençoado.

Bem-aventurada é a nação cujo Deus é o SENHOR,

    e o povo que ele escolheu para a sua herança.

                                                         (Sal. 33:12, RC)  

Bênçãos e Maldições São Favores da Aliança

O Salmo 1 convida Israel a comparar a bênção divina do justo com a maldição divina sobre o ímpio. Os cânticos sagrados de Israel começam com uma beatitude, uma invocação de bênção: "Bem-aventurado o homem . . . ." No Sermão no Monte, Jesus começou também com beatitudes: "Bem-aventurados os . . ." (Mat. 5). Isto implica felicidade para a pessoa que aceita o Senhor como o seu Mestre. A pessoa é descrita primeiro no que ela não está fazendo (vs. 1), então em o que ela faz verdadeiramente ou desfruta (vs. 2). A intenção é, não um quadro de alguma ação incidental do homem, mas uma caracterização do seu caminho ou padrão de vida:

. . . que não anda no conselho dos ímpios [ou planos, pensamentos], não se detém no caminho dos pecadores [ou padrão de vida], nem se assenta na roda dos escarnecedores. (Sal. 1:1, RA).

O caminho do ímpio é descrito aqui como uma vida de escravidão completa em pecado. Seus pensamentos – quer dizer, o seu coração – corrompe os seus atos e palavras da mesma maneira que uma fonte suja polui suas próprias correntes.

Feliz é o que evita tal modo de vida, porque o ímpio não tem paz, felicidade, bênção na vida. Por outro lado, onde o homem abençoado acha as suas alegrias?

Antes, o seu prazer está na lei do SENHOR,

    e na sua lei medita de dia e de noite.

                                                            (v. 2, RA)
 
Esta caracterização que menciona duas vezes a lei de Deus – a Torah – não descreve um piedoso fariseu legalista como o vemos no Novo Testamento. A lei de Deus não é um jugo ou fardo ao cantor do salmo. Pelo contrário, "o seu prazer está na lei do SENHOR". O seu coração está nela, porque a lei de Deus está no seu coração, como declarado em outros salmos:

Agrada-me fazer a tua vontade, ó Deus meu;

    dentro do meu coração, está a tua lei.

                                                        (Sal. 40:8, RA)

Ele traz no coração a lei do seu Deus;

    nunca pisará em falso.

                                 (Sal. 37:31, NVI)

Estes testemunhos de comunhão com o Senhor indicam que também os antigos santos experimentaram a aliança da graça de Deus! Eles caminharam com Deus e receberam o que o Senhor tinha prometido a todos os crentes: "Porei a minha lei no íntimo deles e a escreverei nos seus corações. Serei o Deus deles, e eles serão o meu povo." (Jer. 31:33; cf. Ezeq. 36:26, 27). Para tal, a vontade e a lei santa de Deus não são mais um comando externo que não encontra nenhuma resposta interna no coração. Pelo contrário, o coração que prova a bondade perdoadora do Senhor está sendo recriado ou é transformado em seus desejos íntimos pelo Espírito de Deus. Os salmos que tratam da Torah (Sal. 1; 19; 119) todos testemunham de uma alegria religiosa que o apóstolo  Paulo expressou nas palavras: "No íntimo do meu ser tenho prazer na Lei de Deus" (Rom 7:22, NVI). Isto não nega que Paulo tivesse um conhecimento mais profundo do pecado e da graça por meio de Cristo. Só afirma que a religião cristã de fé em Cristo Jesus não é basicamente diferente daquela dos salmistas de Israel. Cristo restabeleceu o que tinha estado perdido em judaísmo rabínico dos Seus dias, de forma que os salmos podem funcionar mais efetivamente nos que crêem no Messias o Jesus.

Cristo não somente professou, "eu tenho guardado os mandamentos de meu Pai [aqueles do Deus de Israel] e no seu amor permaneço." (João 15:10), Ele entrou na raiz espiritual e motivação ao Ele dizer, "Minha comida é fazer a vontade daquele que me enviou, e realizar a sua obra" (João 4:34). Tal uma paixão predominante em servir ao Senhor é expressa no Salmo 1 como a delícia do justo. Ele medita na lei de Deus "de dia e de noite" (v. 2). Ele conhece o Senhor como o seu Redentor "desde a terra de Egito" (Osé. 12:9, NVI), e a lei (literalmente: Torah) do Senhor como o dom de Sua graça.

É importante entender o termo "Torah" em seu âmbito pleno. Torah quer dizer ensino divino ou instrução (cf. Sal. 78:1) que é muito mais que os Dez Mandamentos em si. Torah também inclui as instruções de Deus para crer, confiar, arrepender-se, confessar, e buscar reconciliação com Ele em Seu santuário. Portanto, Torah compreende a lei e a graça reconciliadora. Os estudiosos do Antigo Testamentos concordam que a tradução de Torah por "lei" como o código moral é inadequada, muito estreita.

O costume de tomar a lei moral por si só, isolada da aliança da graça reconciliadora, era estranho aos salmistas. Eles nunca falam de "a lei", mas constantemente de "a lei do SENHOR" ou de "Tua lei" (veja Sal. 1; 19; 119). Quando os poetas dos salmos usam tais termos como "testemunhos", "estatutos", "ordens", "ordenanças", "preceitos", "palavra", "promessa", e até mesmo "o temor do SENHOR" (Sal. 19:9) como sinônimos da palavra "Torah", eles sempre têm em mente a Torah como um todo não dividido, centralizado nos serviços do santuário. Isto não nega o fato que a Torah tenha aspectos diferentes, legal e expiatório, mas estes nunca estavam isolados um do outro, como se se pudesse separar os dois. O Senhor uniu a lei moral e sua graça expiatória pelo ministério sacerdotal em um indissolúvel inter-relacionamento dinâmico. A santa lei de Deus permaneceu sempre lei da aliança; seu lugar e função estavam exclusivamente dentro do santuário de Deus.

Alegria na Torah

A característica dominante do judaísmo farisaico no tempo de Jesus parece ter sido que o conceito e a experiência da promessa da nova aliança de Jeremias tinham sido perdidos de vista. As ordens morais geralmente foram consideradas como o meio de salvação – como o meio de ganhar méritos – de forma que o perigo da justiça-própria não pôde mais ser evitado. Estas tinham sido a própria experiência e auto-estima de Paulo como um rabino fervoroso. Ele confessou que tendo sido um fariseu zeloso, "quanto à justiça que há na lei, irrepreensível" (Filip. 3:6).

O salmistas do antigo Israel, pelo contrário, todos viveram em uma consciência despertada do pecado e foram motivados por um senso profundo de gratidão pela graça recebida do Senhor. Na Torah do Senhor eles experimentaram o Santo em Sua pureza impecável e irresistível misericórdia. Por esta razão eles cantaram:

A lei do SENHOR é perfeita

    e restaura a alma. ...

Os preceitos do SENHOR são retos

    e alegram o coração.

                                   (Sal. 19:7, 8, RA)

Tenho visto que toda perfeição tem seu limite;

    mas o teu mandamento é ilimitado.

Quanto amo a tua lei!

    É a minha meditação, todo o dia!

                                         (Sal. 119:96, 97, RA)

Desvenda os meus olhos, para que

    eu contemple as maravilhas da tua lei.

                                            (Sal. 119:18)

Os poetas meditaram na lei maravilhosa (Torah) do Senhor somente com a finalidade de delícia? Certamente não! Eles se regozijaram na Torah por um propósito mais elevado que alegria mística. Eles buscavam saber a vontade de Deus para agradar e glorificar o seu Redentor.

De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho?

    Observando-o segundo a tua palavra.

De todo o coração te busquei;

    não me deixes fugir aos teus mandamentos.

Guardo no coração as tuas palavras,

    para não pecar contra ti.

. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .

Lâmpada para os meus pés é a tua palavra

    e luz para os meus caminhos.

                               (Sal. 119:9-11, 105, RA)

Os poetas hebreus inspirados conheciam poder salvador e santificador da palavra de Deus. Para eles com Deus, a vida ficava rica, significativa, e frutífera:

Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas,

    que, no devido tempo, dá o seu fruto,

e cuja folhagem não murcha;

    e tudo quanto ele faz será bem sucedido.

Os ímpios não são assim;

    são, porém, como a palha

    que o vento dispersa.

                                                                  (Sal. 1:3, 4, RA)

Comunhão com Deus é Vida ao Máximo

O poema revela a produção da bênção divina na vida do justo. Ele prosperará em tudo aquilo que ele faz. Por que? É por causa da lei de causa e efeito? Não. Ele é frutífero, efetivo em todos os seus empenhos porque ele continuamente utiliza o poder escondido do Senhor. Uma árvore plantada junto a ribeiros de água frutifica em sua estação porque constantemente pode utilizar água sustentadora da vida. Assim é com a pessoa que tem sede diante de Deus.

O que procura a Deus achará o Senhor dia e noite disposto a ouvir sua oração e súplica. Davi nos assegura:

Sempre tenho o Senhor diante de mim.

    Com ele à minha direita,

não serei abalado.

                                    (Sal. 16:8, NVI)

Por meio da meditação é assimilado o conhecimento da Torah no coração e está motivando a alma a amar.

O estudo da Bíblia e a oração juntos são os meios para continuar no caminho da bênção. A Escritura é como uma semente; através da oração ela recebe a água do Espírito. Deste modo Deus dá o crescimento espiritual.

O crente cristão fica na constante necessidade destes dois meios da graça divina. Cristo e os apóstolos fizeram uso efetivo tanto da Escritura quanto da oração.

As bênçãos de Deus sempre não são imediatamente visíveis em prosperidade material. O Salmo 73 mostra como Asafe lutou com esta aparente contradição, porque ele viu "a prosperidade dos ímpios" (73:3). Seu coração só veio descansar quando ele levou em conta o destino final do ímpio como revelado no santuário de Deus (73:17-20).

Porque a realização plena das promessas da aliança de Deus não pode freqüentemente ser vista nesta vida, é crucial pegar a perspectiva apocalíptica da aliança de Deus. O justo conhece o destino do ímpio.

O insensato não entende,

    o tolo não vê

que, embora os ímpios brotem como a erva

    e floresçam todos os malfeitores,

eles serão destruídos para sempre.

                                                (Sal. 92:6, 7)

O apóstolo Paulo acentua esta instrução da Torah: "Nunca procurem vingar-se, mas deixem com Deus a ira, pois está escrito: ‘Minha é a vingança; eu retribuirei’, diz o Senhor." (Rom 12:19). Contudo ele também confirma a mensagem do Salmo 1 que aqueles que amam a Deus serão abençoados, mesmo se eles não podem ver isto imediatamente:

Sabemos que Deus age em todas as coisas para o bem daqueles que o amam, dos que foram chamados de acordo com o seu propósito. (Rom 8:28).

O salmista usa a figura de contraste para sustentar sua mensagem mais vigorosamente. O ímpio, ele diz, é o próprio oposto do justo. Eles são como a palha que o vento dispersa. Em outras palavras, o ímpio não possui nenhuma substância, nenhum caroço frutífero, nenhum peso moral, enquanto o justo é comparado a uma árvore frutífera bem carregada.

O que faz o ímpio tão estéril e espiritualmente oco, até mesmo dentro de Israel? É sua falta, a sua negligência pecadora do conhecimento do Senhor. Davi diz: "Não há temor de Deus diante dos seus olhos" (Sal. 36:1). Ele pode pertencer exteriormente ao povo da aliança e ostentar-se nas promessas da aliança, mas a sua confiança está extraviada em sua descendência natural de Abraham. Quando João Batista veio preparar Israel para encontrar o seu Messias, ele chocou os fariseus e saduceus com sua mensagem: "Produzi, pois, frutos dignos de arrependimento; e não comeceis a dizer entre vós mesmos: Temos por pai a Abraão" (Mat. 3:8, 9, RA). Sem o fruto do Espírito, isto é, sem uma vida santificada de acordo com a Torah do Senhor, todas as reivindicações religiosas do povo de Deus são inúteis e só conduzirão a completa vergonha. Isto acontecerá no juízo final, do qual ninguém pode escapar:

Por isso, os perversos não prevalecerão no juízo,

    nem os pecadores, na congregação dos justos.

                                                                (Sal. 1:5)

O Salmo 1 declara que o ímpio perecerá "no juízo". Desde que a expressão paralela é "a assembléia dos justos", poder-se-ia pensar principalmente nos juízos regulares de Israel no santuário (Deut 17:8, 9). Os Salmos 7 e 26 representam a liturgia sagrada para tais julgamentos (veja Sal. 7 abaixo). O mais pleno sentido aqui é indubitavelmente a perspectiva apocalíptica do juízo final de Deus. Lá o ímpio será completamente desmascarado e exposto em sua nudez moral e não terá nenhum abrigo para esconder-se, enquanto o justo se levantará para receber a sua herança (Dan 12:13, RA).

Cristo anunciou a separação final do bem e do mal repetidamente em Suas parábolas.

"Assim acontecerá no fim desta era. Os anjos virão, separarão os perversos dos justos e lançarão aqueles na fornalha ardente, onde haverá choro e ranger de dentes.”  (Mat. 13:49, 50).

O primeiro salmo finalmente aponta diretamente ao Senhor como o que sustenta um universo moral:

Pois o SENHOR conhece o caminho dos justos,

    mas o caminho dos ímpios perecerá.

                                                      (Sal. 1:6, RA)

A antítese que está por baixo do poema inteiro chega à revelação climática de que o Deus de Israel separará em última instância o justo e o ímpio. A tradução mais precisa de verso 6 seria, "Pois o SENHOR conhece o caminho do justo" (assim na RA e outras traduções).

O "conhecimento" do Senhor no verso 6 não é nosso tipo moderno e intelectual de conhecimento, mas a idéia hebraica de conhecimento experimental, um conhecimento apaixonado (Sal. 37:18). Portanto indica que o Senhor acompanha amorosamente o justo no seu modo de vida e lhes dá a bênção do Seu companheirismo que nunca falha. O ímpio, que não tem nenhuma ligação com o Senhor, terminará o seu caminho em morte, pelo juízo de Deus.

Cristo confirmou esta perspectiva apocalíptica dos dois caminhos para todas as pessoas:

"Entrem pela porta estreita, pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela. Como é estreita a porta, e apertado o caminho que leva à vida! São poucos os que a encontram."  (Mat. 7:13, 14).

Cristo veio oferecer vida eterno para todos (veja João 12:32). Ele Se oferece à nossa alma de forma que todos os que O recebem participarão mesmo agora na alegria messiânica:

"Eu vim para que tenham vida, e a tenham plenamente.”

                                                             (João 10:10, NVI).

"Tenho lhes dito estas palavras para que a minha alegria esteja em vocês e a alegria de vocês seja completa." (João 15:11).


Extraído do livro: Libertação nos Salmos (Hans K. LaRondelle)

Pr. Cirilo Gonçalves
Evangelista da IASD - AP, SP.
Doutorando em Teologia - RTS
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